segunda-feira, 2 de setembro de 2013

O declínio dos impérios eletrônicos


paul krugman

26/08/2013 - 10h16

O declínio dos impérios eletrônicos

O inesperado anúncio de Steve Ballmer de que ele deixaria a presidência executiva da Microsoft causou grande volume de comentários. Não sendo especialista em tecnologia e nem guru de gestão, não há muito que eu possa acrescentar quanto a essas duas frentes. Mas creio saber um pouco sobre economia, e também leio muita História. Assim, o anúncio de Ballmer me levou a pensar sobre externalidades de rede e Ibn Khaldun. E eu argumentaria que pensar sobre essas coisas pode ajudar a garantir que extraiamos as lições corretas dessa reviravolta empresarial específica.
Primeiro as externalidades de rede: considere o estado do setor de computação por volta de 2000, quando o preço das ações da Microsoft atingiu seu pico e a companhia parecia completamente dominante. Recorde as camisetas que mostravam Bill Gates como um borg (um ser integrado a uma mentalidade coletiva de colmeia em "Jornada nas Estrelas"), com os dizeres "resistir é fútil. Prepare-se para ser assimilado". Você se lembra, além disso, que a Microsoft ocupava posição central nas preocupações quanto à aplicação das leis antitruste?
O estranho era que ninguém parecia gostar dos produtos da Microsoft. Todos concordavam em que os computadores Apple eram melhores que os computadores equipados com o sistema operacional Windows. Mas a vasta maioria dos computadores de mesa e laptops usava o Windows. Por quê?
A resposta, basicamente, é que todo mundo usava o Windows porque todo mundo usava o Windows. Se você tinha um computador equipado com o Windows e precisava de ajuda com ele, bastava pedir ao cara no cubículo ao lado, ou ao pessoal da informática no andar de baixo, e a probabilidade de que obtivesse a resposta desejada era considerável. O software era criado para operar com o Windows; os periféricos idem.
Era um retrato das externalidades de rede em ação, e elas fizeram da Microsoft um monopólio.
A história de como situação surgiu é complicada, mas não creio que seja injusto afirmar que a Apple acreditou, erroneamente, que os compradores comuns dariam à qualidade superior de seus produtos o mesmo valor que as pessoas da empresa atribuíam. Por isso, ela cobrava preços mais caros que os da concorrência, e quando veio a perceber o número de pessoas que estavam optando por máquinas que não eram assim tão boas mas faziam o trabalho do mesmo jeito, o domínio da Microsoft já estava garantido.
Discussões como essas sempre atraem intervenção dos devotos da Apple, que insistem em que tudo que um computador Windows pode fazer, um Apple faz melhor, e apenas idiotas compram computadores Windows. Pode ser que estejam certos. Mas isso não importa, porque existe grande número desses idiotas - entre os quais me incluo. E o Windows continua a dominar o mercado de computadores pessoais.
Os problemas da Microsoft surgiram com a ascensão de novos aparelhos cuja importância notoriamente escapou à empresa. "Não há chance", declarou Ballmer em 2007, "de que o iPhone conquiste fatia de mercado significativa".
Como a Microsoft conseguiu ser tão cega? É nesse ponto que Ibn Khaldun entra na história. Ele foi o filósofo muçulmano do século 14 que basicamente inventou o que hoje designamos como ciências sociais. E uma de suas percepções, baseada em uma história de sua África do Norte natal, era a de que existia um ritmo na ascensão e queda de dinastias.
Os nômades do deserto, ele argumentou, sempre tiveram mais coragem e coesão social do que o as pessoas civilizadas e assentadas em cidades, e por isso ocasionalmente eles emergem de seus baluartes para conquistar terras cujos governantes se tornaram corruptos e complacentes. Os novos soberanos criam dinastias - e com o tempo se tornam igualmente corruptos e complacentes, e ficam à mercê de um novo conjunto de bárbaros.
Não creio que seja absurdo aplicar essa história à Microsoft, uma companhia que se saiu tão bem com seu monopólio sobre os sistemas operacionais que perdeu o foco, enquanto a Apple - ainda vagueando pelo deserto depois de tantos anos - estava alerta a novas oportunidades. E assim uma nova onda de bárbaros deixou o deserto.
Às vezes, aliás, os bárbaros são convidados a intervir por uma facção doméstica em busca de reacomodação. Talvez seja isso que está acontecendo no Yahoo: Marissa Miller não se parece muito com um feroz líder beduíno, mas é possível que esteja cumprindo o mesmo papel funcional.
De qualquer forma, o divertido é que a posição da Apple nos aparelhos móveis agora porta forte semelhança com aquela que a Microsoft detinha nos sistemas operacionais. É fato que a Apple produz aparelhos de alta qualidade. Mas a maioria dos observadores concorda em que são pouco melhores do que os dos rivais, se é que o são, e seus preços são altos.
Por que as pessoas os compram, então? Externalidades de rede: muita gente mais usa os iQualquercoisa, há mais apps para o iOS do que para outros sistemas operacionais, e com isso a Apple se torna a escolha mais segura e fácil. Meet the new boss, the same as the old boss [diga olá ao novo patrão, igualzinho ao velho patrão].
Há uma moral política a aprender com isso? Deixem-me propor ao menos um argumento negativo: mesmo que a Microsoft na verdade não tenha conseguido dominar o mundo, as preocupações antitruste quanto a ela não eram levianas. A Microsoft era um monopólio, vivia como rentista desse monopólio e não exibia inovação. A destruição criativa significa que monopólios não duram para sempre, mas não que sejam inofensivos enquanto duram. Isso valia para a Microsoft ontem; pode valer para a Apple, o Google, ou uma empresa que ainda não está em nosso radar, amanhã.
Tradução de PAULO MIGLIACCI
paul krugman
Paul Krugman é prêmio Nobel de Economia (2008), colunista do jornal "The New York Times" e professor na Universidade Princeton (EUA). Um dos mais renomados economistas da atualidade, é autor ou editor de 20 livros e tem mais de 200 artigos científicos publicados.

O fascismo do PT contra os médicos


luiz felipe pondé

02/09/2013 - 03h05

O fascismo do PT contra os médicos

O PT está usando uma tática de difamação contra os médicos brasileiros igual à usada pelos nazistas contra os judeus: colando neles a imagem de interesseiros e insensíveis ao sofrimento do povo e, com isso, fazendo com que as pessoas acreditem que a reação dos médicos brasileiros é fruto de reserva de mercado. Os médicos brasileiros viraram os "judeus do PT".
Uma pergunta que não quer calar é por que justamente agora o governo "descobriu" que existem áreas do Brasil que precisam de médicos? Seria porque o governo quer aproveitar a instabilidade das manifestações para criar um bode expiatório? Pura retórica fascista e comunista.
E por que os médicos brasileiros "não querem ir"?
A resposta é outra pergunta: por que o governo do PT não investiu numa medicina no interior do país com sustentação técnica e de pessoal necessária, à semelhança do investimento no poder jurídico (mais barato)?
O PT não está nem aí para quem morre de dor de barriga, só quer ganhar eleição. E, para isso, quer "contrapor" os bons cidadãos médicos comunistas (como a gente do PT) que não querem dinheiro (risadas?) aos médicos brasileiros playboys. Difamação descarada de uma classe inteira.
A população já é desinformada sobre a vida dos médicos, achando que são todos uns milionários, quando a maioria esmagadora trabalha sob forte pressão e desvalorização salarial. A ideia de que médicos ganham muito é uma mentira. A formação é cara, longa, competitiva, incerta, violenta, difícil, estressante, e a oferta de emprego decente está aquém do investimento na formação.
Ganha-se menos do que a profissão exige em termos de responsabilidade prática e do desgaste que a formação implica, para não falar do desgaste do cotidiano. Os médicos são obrigados a ter vários empregos e a trabalhar correndo para poder pagar suas contas e as das suas famílias.
Trabalha-se muito, sob o olhar duro da população. As pessoas pensam que os médicos são os culpados de a saúde ser um lixo.
Assim como os judeus foram o bode expiatório dos nazistas, os médicos brasileiros estão sendo oferecidos como causa do sofrimento da população. Um escândalo.
É um erro achar que "um médico só faz o verão", como se uma "andorinha só fizesse o verão". Um médico não pode curar dor de barriga quando faltam gaze, equipamento, pessoal capacitado da área médica, como enfermeiras, assistentes de enfermagem, assistentes sociais, ambulâncias, estradas, leitos, remédios.
Só o senso comum que nada entende do cotidiano médico pode pensar que a presença de um médico no meio do nada "salva vidas". Isso é coisa de cinema barato.
E tem mais. Além do fato de os médicos cubanos serem mal formados, aliás, como tudo que é cubano, com exceção dos charutos, esses coitados vão pagar o pato pelo vazio técnico e procedimental em que serão jogados. Sem falar no fato de que não vão ganhar salário e estarão fora dos direitos trabalhistas. Tudo isso porque nosso governo é comunista como o de Cuba. Negócios entre "camaradas". Trabalho escravo a céu aberto e na cara de todo mundo.
Quando um paciente morre numa cadeira porque o médico não tem o que fazer com ele (falta tudo a sua volta para realizar o atendimento prático), a família, a mídia e o poder jurídico não vão cobrar do Ministério da Saúde a morte daquele infeliz.
É o médico (Dr. Fulano, Dra. Sicrana) quem paga o pato. Muitas vezes a solidão do médico é enorme, e o governo nunca esteve nem aí para isso. Agora, "arregaça as mangas" e resolve "salvar o povo".
A difamação vai piorar quando a culpa for jogada nos órgãos profissionais da categoria, dizendo que os médicos brasileiros não querem ir para locais difíceis, mas tampouco aceitam que o governo "salvador da pátria" importe seus escravos cubanos para salvar o povo. Mais uma vez, vemos uma medida retórica tomar o lugar de um problema de infraestrutura nunca enfrentado.
Ninguém é contra médicos estrangeiros, mas por que esses cubanos não devem passar pelas provas de validação dos diplomas como quaisquer outros? Porque vivemos sob um governo autoritário e populista.
Luiz Felipe Pondé
Luiz Felipe Pondé, pernambucano, filósofo, escritor e ensaísta, doutor pela USP, pós-doutorado em epistemologia pela Universidade de Tel Aviv, professor da PUC-SP e da Faap, discute temas como comportamento contemporâneo, religião, niilismo, ciência. Autor de vários títulos, entre eles, "Contra um mundo melhor" (Ed. LeYa). Escreve às segundas na versão impressa de "Ilustrada".

Migração rural amplia 'apartheid' chinês

02/09/2013 - 02h35

MARCELO NINIO
DE PEQUIM
Decoradas com desenhos de princesas, as paredes do pequeno apartamento de um cômodo na periferia de Pequim são a única lembrança do conto de fadas sonhado pela faxineira Zhang Jiakou ao chegar à capital chinesa, há 14 anos.
Assim como outros 200 milhões de migrantes rurais do país, Zhang fugiu da pobreza em seu vilarejo em busca de uma vida melhor na cidade. Encontrou salários baixos e discriminação.
"Por mim eu voltava", diz Zhang, que ganha cerca de 2.500 yuans por mês (R$ 900). "Mas meu marido continua achando que vai ganhar dinheiro. Migração é uma aposta arriscada."
Por trás do sucesso econômico da China, milhões de migrantes como Zhang são condenados a viver como cidadãos de segunda classe pelo sistema de registro conhecido como "hukou", que divide a população entre residentes urbanos e rurais.
Marcelo Ninio/Folhapress
Vila de migrantes Dongshagezhuang, nos arredores de Pequim; a faxineira Zhang Jiakou, 34, mora com o marido e a filha
Vila de migrantes Dongshagezhuang, nos arredores de Pequim; a faxineira Zhang Jiakou, 34, mora com o marido e a filha
A antiga promessa de abolir o sistema voltou a ser discutida com a a chegada ao poder da nova liderança do Partido Comunista, que tomou posse em março.
Depois de protagonizar a maior migração da história da humanidade nas últimas três décadas, a China se prepara para seu próximo salto.
O governo chinês espera que 390 milhões de pessoas deixem o campo rumo às cidades até 2030. As cifras das últimas décadas impressionam. Desde 1980, quando a abertura econômica dava os primeiros passos, a população urbana ganhou 700 milhões de pessoas e hoje já é mais de metade do país.
"Se continuar no ritmo dos últimos dez anos, haverá um bilhão de pessoas nas cidades até 2027", diz Tom Miller, autor do livro "O Bilhão Urbano da China" (sem edição em português). "Um em cada oito habitantes do planeta viverá numa cidade chinesa."
BARREIRAS
Mas a nova onda de urbanização resvala em velhas barreiras que ameaçam aumentar a desigualdade entre pobres e ricos, uma das fontes permanentes de instabilidade social no país.
A maior delas é o "hukou", o registro de residência que nega aos migrantes rurais acesso a serviços públicos básicos nas cidades, como educação e saúde. O sistema já foi comparado por especialistas ao apartheid, o antigo regime de segregação racial da África do Sul.
Adotado em 1958 pelo Partido Comunista sob a tutela de Mao Tse-tung, o "hukou" visava evitar o êxodo de trabalhadores rurais e garantir a produção agrícola.
Com a abertura econômica iniciada em 1978, a mobilidade passou a ser permitida, mas os direitos sociais jamais foram igualados.
No momento em que a economia chinesa vive a maior desaceleração em duas décadas, o governo aposta na urbanização para ampliar o mercado de consumo doméstico e transformá-lo no principal motor do crescimento, reduzindo a dependência de exportações.
O plano fracassará se o governo continuar relutando em abolir o "hukou", prevê Tom Miller. "Os migrantes vivem em bolsões de pobreza, ou em dormitórios de fábricas, e não se integram à vida urbana", explica.
Segundo afirma Miller, os migrantes "não gastam em bens de consumo ou serviços, porque precisam poupar para financiar o estudo dos filhos e o tratamento médico de suas famílias".
O maior obstáculo para a reforma é a oposição dos governos das cidades, que teriam que pagar a conta.
"Enfrentamos resistência de prefeitos e das elites urbanas. Isso está influindo na tomada de decisões", disse Li Tie, diretor da Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma. "Ninguém quer ter migrantes como vizinhos para dividir o chamado espaço civilizado. É um conflito de interesses".
Há cinco anos em Pequim, o agricultor Sen Jialou, 51, teve que deixar o filho no seu vilarejo, na província de Shanxi (norte), porque não tinha dinheiro para pagar escola particular na capital.
Demitido há duas semanas do hotel onde era lavador de pratos, não tem onde morar. Dorme com a mulher numa estação de trem. Mesmo assim, não pensa em voltar.
"Aqui ainda posso ganhar alguma coisa. No meu vilarejo eu morreria de fome", diz.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Quem sou eu


Professor , licenciado em geografia pela UFPa e especialização em geografia humana pela PUC-MG, leciona desde 1989 em colégios e cursos pré-vestibulares, geopolítica, geografia do Brasil, geografia física e temas da Amazônia. É desde 1999 sócio e professor do sistema de ensino universo, insituição de ensino fundamental, médio em Belém-PA. Discute temas atuais, como: globalização, blocos econômicos, conflitos étnicos, migrações, transição demográfica, integração da Amazônia à economia nacional, rede urbana amazônica, grandes projetos, desmatamento, etc. É acadêmico de Direito do nono semestre.